Conferência "Bibliotecas Públicas e Poder Local: Comunidades, Redes e Cidadania",
"Tivemos jovens do Bairro do Zambujal a entrar na biblioteca a medo"
A ideia de que as bibliotecas são depósitos de livros foi recusada numa conferência em que se falou de inclusão e proximidade.
Tornar as bibliotecas espaços de inclusão e fazer com que deixem de ser vistas apenas como locais onde se guardam livros foi um dos desafios assumidos por vários dos intervenientes na conferência "Bibliotecas Públicas e Poder Local: Comunidades, Redes e Cidadania", que decorreu, esta segunda-feira, dia 22, na Torre do Tombo, em Lisboa. Sandra Dias, técnica superior das Bibliotecas Municipais de Loures, recordou o dia em que jovens do Bairro do Zambujal passaram as portas da biblioteca pela primeira vez, numa das iniciativas ali desenvolvidas. "Entraram a medo, alguns nunca lá tinham ido, achavam provavelmente que o espaço não era para eles", lembrou. A dimensão da biblioteca poderá não ter ajudado nesse momento, mas o que inicialmente terá sido surpresa e receio, rapidamente se desvaneceu.
Esta ideia de que a biblioteca é para todos foi um dos temas que marcou a conferência. Tânia Camilo, técnica superior da Biblioteca Municipal do Cadaval, concorda na importância do trabalho com a comunidade. "Se tivermos um espaço só para quem lê livros não estamos a fazer um bom trabalho", sustenta. A responsável defende que as pessoas têm de ser "puxadas para dentro e trazer ideias".
E se esta relação de proximidade com a comunidade é vincada como fundamental nos tempos que correm, Rui Gaspar, técnico superior da Biblioteca Municipal de Alpiarça, afirma que não há idade para estabelecer esta conexão. "Temos projetos para todas as idades, desde bebés à 3.ª idade".
Proximidade foi uma das palavras mais ouvidas na sala da Torre do Tombo. Para Frederico Rosa, autarca da Câmara Municipal do Barreiro, trata-se da "grande conquista do poder local". Já Hugo Moreira Luís, presidente da Câmara de Mafra, destacou o papel das bibliotecas no combate ao isolamento e na promoção da coesão territorial. Álvaro Araújo presidente da Câmara Municipal de Vila Real de Santo António, território do Baixo Guadiana, fez questão de sublinhar o espírito de intercâmbio, com os vizinhos de Espanha.
Democracia com cidadãos informados
O chefe da divisão de Bibliotecas e Arquivo da Câmara Municipal de Matosinhos congratulou-se com a associação entre os 50 anos do Poder Local e os 40 anos da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas (que vão ser assinalados em 2027). Para Nuno Cabo, o exercício da democracia "carateriza-se pela proximidade que as bibliotecas conseguem ter com a população".
As duas datas foram igualmente sublinhadas pelo presidente da Câmara de Mourão. João Fortes, que também integra o Conselho Diretivo da Associação Nacional de Municípios Portugueses, referiu que mais do que duas efemérides são "dois marcos históricos que estão interligados."
Na intervenção do diretor-geral da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, um dos pontos elencados foi a colaboração entre o Estado e os municípios. "É na biblioteca da vila e da cidade que o Estado e o cidadão se encontram à distância mais curta possível", afirmou. Luís Filipe Santos falou do tempo de um Portugal com "estantes poeirentas" para recordar o trabalho realizado nas últimas quatro décadas.
Orador convidado da sessão de abertura, o ministro da Presidência, António Leitão Amaro, afirmou que depois de, no passado, um dos maiores problemas de Portugal ter sido o analfabetismo, agora o desafio é outro: o querer ler. "Não ler significa estar fora do conhecimento e do debate público. A leitura é uma condição de liberdade", sustentou, depois das primeiras palavras da conferência terem sido proferidas por Inês Cardoso, diretora-geral editorial da Notícias Ilimitadas.
Os cidadãos confiam nas bibliotecas, mas o seu potencial ainda está longe de ser aproveitado. É uma das conclusões de um relatório da Comissão Europeia sobre o papel das bibliotecas públicas que vai ser divulgado brevemente e apresentado em outubro deste ano. Uma revelação feita por Bruno Duarte Eiras, subdiretor-geral da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas, que mencionou que "muitas bibliotecas continuam sem os recursos e profissionais necessários".
No encerramento da conferência foi anunciado o vencedor da 11.ª edição do "Prémio Maria José Moura- Boas Práticas em Bibliotecas Públicas Municipais. A distinção de 2024 foi atribuída ao projeto "Conversação criativa guiada de português para estrangeiros" apresentado pela Biblioteca Municipal Camões, da Rede de Bibliotecas de Lisboa, num reconhecimento pelo papel na construção de uma sociedade mais inclusiva.
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https://alpiarca.pt/bma/index.php/componente-favoritos/atividades/2026/714-conferencia-bibliotecas-publicas-e-poder-local-comunidades-redes-e-cidadania#sigFreeIdfd8c68674e
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Fotos: Mário Vasa

- A Biblioteca Municipal de Alpiarça foi convidada a participar nesta conferência. Painel 1












